História

A história da Associação Brasileira de Estética (ABRE) remete ao início dos 1990 e pode ser dividida em dois grandes momentos: sua germinação e desenvolvimento, encabeçado por Nilza de Oliveira, incluindo ainda Regina Moura e Maria Helena Lisboa da Cunha, na cidade do Rio de Janeiro, que culminou com a cidade sendo sede, em 2004, do XVI International Congress of Aesthetics da International Association for Aesthetics (IAA); e sua refundação, em 2006, liderada por Rodrigo Duarte, incluindo Virgínia Figueiredo e Imaculada Kangussu, com apoio da antiga diretoria. A nova diretoria terminou por transferir para o estado de Minas Gerais as atividades da associação, garantindo uma regularidade bianual àquele que se tornou seu principal evento: o Congresso Internacional de Estética Brasil, ampliando significativamente o número de associados e a criação de outros congressos na área.

Germinação e desenvolvimento da ABRE: Rio de Janeiro (1989-2005)

A ABRE foi inicialmente instituída com o nome de Associação de Estética para a América Latina (AEAL) durante o XI International Congress of Aesthetics da IAA, organizado pelo filósofo inglês Richard Woodfield na Universidade de Nottingham, Reino Unido, no período de 29 de agosto a 2 de setembro de 1988. A comissão organizadora notou a ausência de representantes de países da América Latina e convidou a artista plástica e professora de artes Nilza de Oliveira, na ocasião residente em Londres e única brasileira participando como conferencista nesse evento, a criar a Associação de Estética para a América Latina (AEAL). Renomados filósofos presentes assinaram um documento oferecendo total apoio para que a associação se tornasse realidade no Brasil. Entre os presentes, destaca-se o próprio Richard Woodfield, Tomas Kulka (Departamento de Filosofia da Universidade de Tel-Aviv), Paul Carther (Universidade de Oxford), Ales Erjavec (Universidade da Eslovênia) e Tomonobu Imamichi (Universidade de Tóquio). Naquele momento, criou-se o compromisso para a criação da primeira Associação de Estética para a América Latina, cuja meta seria instituir e manter um fórum permanente de troca de ideias filosóficas entre brasileiros, latino-americanos e outros povos, sobre arte e estética na América Latina.

Voltando a residir no Rio de Janeiro, em 1989, e diante da necessidade de oficializar a Associação de Estética para a América Latina (AEAL) no Brasil, Nilza realiza as primeiras reuniões na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) tendo Regina Moura como assistente. Alguns poucos estudantes se interessaram em participar desses encontros, mas sem nenhum compromisso de afiliação. Nessa fase, uma curiosidade reforçou a condição precária desse surgimento da AEAL: para tornar-se oficial, a associação necessitava de um endereço fixo que não poderia ser o da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde trabalhava Nilza de Oliveira. “Recorremos ao comodato de uma firma comercial, a Casa Gelli, que, sensível ao nosso problema de enfrentar a difícil burocracia existente no Brasil, generosamente forneceu seu endereço para ser usado pela recém criada Associação. A AEAL passou, assim, a dispor de um exíguo espaço nessa loja de móveis e artigos de decoração, situada em Copacabana” lembra a professora Nilza, em cujo apartamento aconteciam as reuniões.

Com endereço fixo, e após vencer inúmeras dificuldades burocráticas, a Associação de Estética para a América Latina, AEAL, é oficialmente instituída no Brasil em 19 de setembro de 1994. Seu estatuto foi elaborado tendo por base o modelo da Associação Internacional de Estética (IAA), destacando-se dentre seus objetivos, além de estimular o interesse pelo estudo e pesquisa da estética como disciplina filosófica, resgatar aspectos da memória artística da América Latina e intensificar as relações culturais da região. Assim, a AEAL, prioritariamente, visava a concretizar, de certo modo, o intercâmbio entre os povos da América Latina e o fortalecimento de seus laços. Tornou-se relevante, na época, por se apresentar como um complemento cultural para os projetos de integração sócio-político-econômicos recém implantados pelo Mercosul (1991-). A primeira diretoria era composta pelos seguintes membros:

Identidade visual (1998-2006)

 

Enquanto no Brasil tentava-se oficializar a AEAL, em 1992, a IAA realiza seu XII International Congress of Aesthetics, na Espanha (sob iniciativa de Luis Alvarez), quando mais duas associações sul-americanas anunciaram interesse em se associar: a Associação Argentina de Estética e a Associação Chilena de Estética. Em 1993, foi criada a Associação Argentina de Estética (AAE) e em 8 de julho do mesmo ano, sob a presidência de Rosa Maria Ravera, uma das fundadoras da AAE, a Universidade de Buenos Aires realizou o I Colóquio Latino-Americano de Estética com a presença e participação de nove países da América Latina, entre eles o Brasil.

Em 27 de outubro de 1995, sob a liderança de Nilza de Oliveira e com o apoio de Maria Helena Lisboa da Cunha, a AEAL realiza o I Simpósio Brasileiro de Estética, com o tema “Diferenças entre valor artístico e valor estético na obra de arte”, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Em 1997, de 14 a 20 de setembro, tem lugar no Teatro Noel Rosa e no Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) o II Colóquio Latino-Americano de Estética, com o tema “Estética em questão”. Entre as exposições destacava-se a instalação “Luar do sertão”, de Lygia Pape. Com mais de trezentos participantes, o evento contou com pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras oriundos de países da América Latina, do Reino Unido, do Canadá e dos Estados Unidos. Entre eles encontravam-se Arnold Berleant (presidente da IAA), Richard Wolheim, Gerd Bornheim, Rodrigo Duarte, Nise da Silveira, Hans Koellreuter, Rosa Maria Ravera, Filoteu Samaniego, Margarita Schultz, Alberto Bass, Kátia Muricy, Elena Garcia, Benedito Nunes, Reza Tavakol, Ana Mae Barbosa, Julio Bressane, Rosa Maria Dias, Lucia Santaella, Luiz Tatit, Wally Salomão, Maria Helena Lisboa, Ricardo Basbaum e Karla Chediak, entre outros.

Um ano depois do II Colóquio, em 1998, a Associação de Estética para a América Latina (AEAL) muda de nome, passando a se chamar Associação Brasileira de Estética (ABRE). Tal mudança foi necessária em virtude da criação de outras associações nacionais na América Latina, como a que havia ocorrido em 1993 com o surgimento da associações argentina e chilena de Estética. A AEAL refaz, portanto, seu estatuto e cria uma nova diretoria mantendo-se a presidência com Nilza de Oliveira, e tendo o professor Gerd Borheim como presidente de honra até seu falecimento em 2002.

A composição da primeira diretoria da ABRE até 2005 incluiu:

Foi também em 1998, após seis anos de tentativa, que a Associação Brasileira de Estética, com a unanimidade de votos das associações internacionais presentes no Congresso de Liubliana, na Eslovênia, obteve a indicação para sediar em 2004, na cidade do Rio de Janeiro, o XVI International Congress of Aesthetics, sob a coordenação de Nilza de Oliveira. Foi a primeira vez que esse importante evento da IAA realizou-se na América Latina. Seu objetivo era apresentar diferentes abordagens de pensamento e reflexão sobre a estética como disciplina filosófica, privilegiando a diversidade cultural em suas relações com a ética, a história, a crítica, a filosofia, a educação, cultura e a vida cotidiana, reforçando assim a importância acadêmica e cultural da estética. O tema central do evento foi “Mudanças na estética”, trazendo para o foco das atenções os problemas e as questões da atualidade da estética, sobretudo no que concerne à arte e cultura contemporâneas.

O XVI Congresso contou com aproximadamente quatrocentos participantes de países, culturas e tradições diferentes. Entre os participantes destacam-se Ken- ichi Sasaki, presidente da IAA, o qual proferiu a conferência de abertura; Rodrigo Duarte, presidente de honra da ABRE e do congresso; Jos de Mul; Gerardo Mosquera; Ales Erjavec; Renato Janine Ribeiro; Fernando Cocchiarale; Marco Lucchesi; Joseph Margolis; Virginia Figueiredo; Charles Feitosa; Anthony Cascardi; Thierry De Duve; Paulo Herkenhoff; Carter Curtis; Edward Lucie-Smith; Vera Terra; Arnold Berleant; Katya Mandoki; Richard Woodfield; Jale Erzen; Wolfgang Welsch; Lev Kreft; Margarita Schultz; Anna Bella Geiger; Diana Domingues; Maria de las Nieves Eirin Rapp; Marilou Winograd; Jeanne Marie Gagnebin; Ricardo Barbosa; Márcia Gonçalves; Rosa Maria Ravera; Graciela Dragoski; Célia Aiziczon; Pedro Geiger; Paulo Sergio Duarte; Reynaldo Roels; Lea Soibelman; Lucia Avancini; Marco Antonio Figueiredo; Reza Tavakol; Antonio Jardim; Luis Alvarez; Maria Helena Lisboa da Cunha; Milton Guran; Regina Moura; Anelise Pacheco; Tâmara Quirico e Luiza Ramalho.

Amadurecimento da ABRE: Belo Horizonte e Ouro Preto (2006 – 2020)

Identidade visual (a partir de 2007)
A Associação Brasileira de Estética, ABRE, após dezesseis anos de atuação em sua sede na cidade do Rio de Janeiro, transfere-se, por iniciativa e convite de Nilza de Oliveira, para o Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, na cidade de Belo Horizonte, sob a presidência do professor Rodrigo Duarte.

A reunião de abertura da transferência da ABRE teve lugar em 19 de maio de 2006, no Laboratório de Estética da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Na ocasião foi eleita a nova diretoria para o período 2006-2007:

Desde então, a ABRE se associou à Linha de Pesquisa em Estética e Filosofia da Arte do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais e ao Programa de Pós-Graduação em Estética e Filosofia da Arte da Universidade Federal de Ouro Preto.

Ao chegar em Minas Gerais, a ABRE se beneficiou da experiência acumulada dos Congressos de Estética que ocorriam desde 1993, majoritariamente em Belo Horizonte, sob a coordenação de Rodrigo Duarte (ver entrevista). Os temas dos eventos que integraram a série de colóquios foram “Morte da arte, hoje” (1993), seguido de “Belo, sublime e Kant” (1995), “As luzes da arte” (1997), “Katharsis” (1999), “Mímesis e expressão” (2001), “Theoria Aesthetica” (2003) e “A dimensão estética” (2005). O primeiro da série a tornar-se oficialmente vinculado à ABRE foi o 8º Colóquio Internacional de Estética: “Estéticas do deslocamento” (2007), ao qual se seguiram “Deslocamentos na arte” (2009, Ouro Preto), “Imagem, imaginação e fantasia” (2011, Ouro Preto), “Gosto, interpretação e crítica” (2013), “O trágico, o sublime e a melancolia”(2015) e “Os fins da Arte (2017). O 14º Congresso Internacional de Estética Brasil, “Artes do Corpo, Corpos da Arte”, ocorrerá em 2019 na cidade de Ouro Preto. Todos resultaram em publicações, seja sob a forma de livro impresso ou em formato eletrônico, sendo os mais recentes publicados pela Editora ABRE.

Em Ouro Preto, de forma complementar e organizado um braço do grupo que comporia a ABRE, acontece, em 2002, o primeiro Colóquio Filosofia e Ficção (FiFi), sob a coordenação de Imaculada Kangussu (ver entrevista) e Olímpio Pimenta. A proposta de elaborar eventos regulares com o intuito de promover a estética filosófica, meta proposta apela ABRE ainda no início dos anos 1990, quando era a Associação de Estética da América Latina (AEAL), torna-se assim uma realidade com sua chegada a Minas Gerais. O sucesso desse objetivo se deve à experiência e à dedicação do grupo de pesquisadores e professores que acolheram esse desafio antes mesmo de sua oficialização em 2006. Ressalta-se ainda que a participação crescente de membros do GT de Estética da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), e de outras áreas do conhecimento que partilham o interesse pela estética, contribuiu para consolidar o Colóquio Internacional de Estética Brasil como o maior encontro de intercâmbio de pesquisas na área no Brasil, atraindo um número crescente de jovens pesquisadores em formação.

Dentre as ações exitosas da ABRE nessa sua fase de amadurecimento, destacam-se ainda a criação da Editora ABRE, responsável pela publicação dos resultados do Congresso Internacional de Estética Brasil, e a inclusão da disciplina “estética” como subárea da área de filosofia junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Desde 2018, contando agora com uma diretoria de três estados diferentes da federação, a ABRE vem trabalhando na reformulação de sua estrutura administrativa e de sua presença digital, com vistas a consolidar seu papel como instituição de referência para os estudos em estética no Brasil.

Profissionalização (2021 – )

Frente às novas exigências legais do país para administração de associações sem fins lucrativos, a ABRE decidiu profissionalizar sua gestão, para garantir sua conformidade aos parâmetros fiscais, bem como a regularidade dos processos decisórios e administrativos. Para tanto, foram contratadas consultorias jurídica e contábil que recomendaram o encerramento do antigo CNPJ, que apresentava questões burocráticas incontornáveis.

Em razão disso, foi elaborado um novo estatuto social, aprovado em Assembleia Geral, mais moderno e consistente com as demandas atuais da associação. Atuando sob um novo CNPJ, a ABRE encontra-se rigorosamente em dia com suas obrigações legais e fiscais, e mantém disponível neste sítio eletrônico toda a sua documentação para apreciação geral, garantindo a transparência necessária para condução de seus processos.

Essa profissionalização da ABRE faz parte do projeto de consolidação nacional da associação que assegura uma atuação ética e efetiva e inclui, também, a reativação de seu selo editorial, doravante oficialmente responsável pela publicação dos anais do Congresso Internacional de Estética Brasil. Ela tem por reflexo, também, a decisão da Associação Internacional de Estética (AII), de sediar em Belo Horizonte a edição de 2023 do ICA, maior evento mundial da área de estética e filosofia da arte.