Congresso 2019
Artes do corpo, corpos da arte
De 22 a 25 de outubro de 2019
Ouro Preto/MG
Comissão Organizadora
Cíntia Vieira da Silva (UFOP)
Debora Pazetto Ferreira (UDESC)
Fernanda Proença (UFOP)
Giorgia Cecchinato (UFMG)
Miguel Gally (UNB)
Rachel Cecília de Oliveira (UFOP)
Rodrigo Duarte (UFMG)
Verlaine Freitas (UFMG)
Virginia Figueiredo (UFMG)
Vladimir Vieira (UFF)

Apresentação

Com raras exceções, o corpo foi historicamente tratado de modo negativo pelo pensamento filosófico: como cárcere da alma, obstáculo à moralidade ou entrave ao conhecimento e à verdade. Na estética, contudo, o corpo e a sensibilidade sempre foram temas centrais, desde seus momentos originários – a saber, quando ela se constituiu como uma disciplina filosófica própria, cujas questões não se deixavam mais reduzir àquelas de que se ocupam a epistemologia e a moral. No século XVIII, e posteriormente no século XIX, foi com frequência a partir de uma remissão, nem sempre desprovida de tensões, à organicidade de suas partes que se procurou organizar um todo a partir das artes particulares. Corpos da arte designam, assim, múltiplas maneiras de sistematizar a produção nesse domínio de objetos, as quais tomam o corpo como modelo estruturante.

Mais recentemente, compreendem-se os corpos da arte de modo mais abrangente. De certo ponto de vista, todas as artes seriam artes do corpo. Em primeiro lugar, porque toda produção artística manifesta, em alguma medida, graus da potência corporal. Além disso, na perspectiva da fruição ou recepção, todas as artes envolvem o corpo enquanto instância capaz de sentir e muitas produções artísticas incluem o corpo de seus interlocutores em sua motricidade.

Assim, as artes do corpo e os corpos da arte seriam, a um só tempo, os objetos artísticos, os corpos dos artistas e os corpos dos fruidores – por vezes, também, recriadores. Como morada, pele, o corpo é lugar, é uma escala, e parte intrínseca da arte de construir espaços, das cidades e do planeta. Como suporte, o corpo é mídia para as artes e culturas. Como objeto e instrumento de arte, o corpo serve e se deixa investigar, torna-se mercadoria. Como arte e conhecimento, os corpos dão existência a culturas e mundos. Como estrutura orgânica, os corpos são (re)organizados tecnológica ou tecno-artisticamente Como parte de uma vasta (in)sensibilização do cotidiano, os papéis desempenhados pelos corpos tornaram-se uma permanente e crescente provocação estética.

Vemos proliferarem e se intensificarem investigações em artes da cena ou do performático, em artes da imagem e do som que, ou fazem vacilar, ou solapam inteiramente a crença numa identidade corporal assegurada pela entronização da fisiologia. Tais pesquisas assumem um caráter eminentemente político, na medida em que a constituição de subjetividades calcadas numa identidade supostamente baseada na fisiologia dos corpos é o fundamento de inúmeros dispositivos de controle do biopoder. Desse modo, pensar filosoficamente sobre as relações entre arte e corpo também é uma maneira de problematizar as normatizações e naturalizações do corpo, trazendo para o centro do debate formas marginalizadas de corporeidade, seja em termos de sexualidade e gênero, ou de classe, raça/etnia e território, de tecnologia ou presentes nas inúmeras atividades da vida cotidiana.